Em pouco mais de 70 anos da atividade industrial no Brasil (desde 1947), chegamos ao fundo do poço em 2018, quando a indústria nacional atingiu o mais baixo nível de participação no PIB do Brasil, 11,3% de participação.

Apesar de ser uma tendência internacional e, portanto, um movimento que não era e não é exclusivo do Brasil, acompanhando a tendência de aumento da participação do setor de serviços na economia global, a queda foi muito acentuada em nosso país.

Precisamente em 1985, a indústria correspondia a 21,6% do PIB. De lá pra cá, nossas fábricas desceram ladeira abaixo. E isso se deve a diversas variáveis tais como: globalização, comércio internacional, custos, instabilidade política, dentre outros. Mas, os motivos mais fortes e determinantes foram: a falta de visão estratégica do governo e a apatia e falta de criatividade de nossos empresários.

O governo federal, ou melhor, os governantes que por lá passaram não souberam enxergar na indústria uma atividade essencial e estratégica para o próprio país. Muitos se entregaram a lógica liberal da economia e resolveram se render aos “benefícios do comércio internacional” (Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Temer e Jair Bolsonaro).

Liberações drásticas da economia, no estilo da noite para o dia, como reduções drásticas de tarifas de importação impactaram sensivelmente a indústria nacional diante da concorrência externa, além dos custos mais baixos mundo afora.

O fato de fabricarmos carroças ao invés de carros, conforme bem assinalado pelo Presidente Collor, não era fundamento suficiente para ter escancarado a economia e tê-la colocado em front de concorrência direta com os players internacionais.

Aplicamos um xeque mate na nossa indústria em overnights e o que sobrou se arrastejou aos poucos beirando quase que a insignificância.

São Paulo, principalmente com o ABC paulista, Amazonas com a Zona França de Manaus, além de alguns outros estados como Bahia e Paraná, são sobreviventes que se arrastam rumo ao aprofundamento da letargia.

Paralelamente, nossos empresários foram incapazes, com algumas exceções, de imprimir um ritmo de pesquisa e inovação que nos reorientasse e nos posicionasse novamente no circuito industrial mundial.

Ao invés disso, grande parte do setor empresarial resolveu viver de histórias relembrando em suas nostalgias seus dias de glória. Resolveram também depositar toda a culpa no governo, talvez para ocultar a incompetência estratégica e falta de criatividade para inovar.

Com a pandemia global e a falta de produtos necessários até mesmo para nos salvar, a criatividade vem à tona de forma forçada, como um instinto de sobrevivência.

Quase que da noite para o dia, o setor produtivo parece descobrir uma força, quase oculta, mas que ainda existe, para uma sinergia em prol de fabricar o que mais precisamos no meio do caos.

O Estado, também desesperado em meio ao caos, começa a se aproximar do setor produtivo e vislumbrar meios de cooperação para o esforço de guerra contra o inimigo invisível, o Covid-19.

De mãos dadas outra vez, depois de longos anos sem romance, o Estado e a indústria descobrem que podem ser mais fortes juntos, um ajudando o outro.

No meio do caos, o Estado não tem como fiscalizar, como exigir índices mínimos de nacionalização e Processos Produtivos Básicos – PPBs. Resumindo, o Estado não tem tempo e nem recursos para burocracia.

Por outro lado, a indústria precisa produzir o essencial e escasso (o que até aqui importávamos) para ajudar o Estado a resolver o problema de saúde e fazer com que a economia retorne à normalidade o mais rápido possível.

Espera-se que tão logo a pandemia acabe, o país repense suas estratégias de produção. A “China dependência” se provou não ser uma estratégia inteligente, seja pelo viés econômico, seja pelo viés de segurança de abastecimento do país do que se pode julgar como produtos essenciais.

E daí vem algumas perguntas: somos tão incompetentes a ponto de não produzirmos as nossas próprias máscaras? Os nossos próprios testes rápidos? Os nossos próprios respiradores? As nossas próprias soluções?

O Brasil precisa redescobrir a força de sua indústria e o momento chegou. Não pode mais ser adiado. Ou fazemos isso ou estaremos abrindo mão de nossa soberania e segurança. E isto não se refere apenas à China, mas ao mundo todo. Chegou a hora do renascimento da indústria nacional.

 

Farid Mendonça Júnior

Economista, advogado e administrador