Por que a Amazônia chama tanto a atenção de uma grande parte do planeta? Entre as prováveis razões, algumas se destacam: a sua biodiversidade, relevância para o controle climático e aspectos relacionados às populações indígenas, mineração e agropecuária. Antes de avançar no assunto é importante gizar algumas linhas sobre esses pontos, os quais têm relevante importância no desenvolvimento de percepções que contribuem para forjar a noção de valor da Amazônia nas mentes das pessoas.

A biodiversidade amazônica é um dos assuntos que atrai a atenção de muitas pessoas em diversas partes do mundo. Biodiversidade é um recurso ambiental que deve ser visto como um ativo e sua conservação como um investimento (FROMM, 2000).

A ciência tem mostrado que está em curso um processo de alteração climática causado em parte, ou em grande parte, pelas atividades humanas. Essa alteração ocorre principalmente por conta da emissão de gases que alteram a composição atmosférica causando um desequilíbrio que leva a modificações no sistema climático. Estudos mostram que a Amazônia tem seu papel nesse processo tanto no que diz respeito às emissões de gases com origem na queima de florestas quanto na estocagem do carbono (NOBRE; SAMPAIO; SALAZAR, 2007).

Povos indígenas são outra fonte de atenção global sobre a Amazônia. Segundo IBGE (2019), o censo demográfico de 2010 mostrou que a população indígena total da Região Norte do Brasil era de 342.836 indivíduos. Desse total, cerca de 74% vivem em terras indígenas. Eles vivem em diversas partes do território, mas há uma alta concentração na região do Rio Negro, no Estado do Amazonas. Há também no Estado, como é o caso do vale do rio Javari, no extremo sudoeste da Região, povos que nunca fizeram contatos com não índios. Em sua maioria, esses povos têm, a cada dia, demandado mais serviços públicos como educação e saúde.

A riqueza mineral amazônica ainda não é totalmente dimensionada, mas do que já se tem conhecimento, suas reservas são significativas e despertam o interesse e imaginação para muito além de suas fronteiras, talvez o Eldorado. Entre essas riquezas minerais, a água é um dos recursos que faz da Amazônia um importante símbolo. Isso ocorre não somente pelo uso nas atividades humanas, mas também pelas suas funções no meio físico, biótico e importância para o sistema climático do hemisfério, o que permite e afeta o desenvolvimento da vida e de atividades econômicas em outras partes do planeta.

Dentre essas fontes de atenção da Amazônia, a agropecuária alegadamente aparece como uma vilã por ter forte associação com o desflorestamento, mas é ao mesmo tempo a grande responsável pela geração de superávit nas exportações brasileiras. Em 2018 (CNA, 2019), o agronegócio foi responsável por 45,1% do valor das exportações brasileiras e até março de 2019 sua participação foi de 47,6%. A narrativa que confronta o agronegócio e o desflorestamento na Amazônia argumenta que a demanda por novas áreas tem pressionado no sentido de aumentar o desflorestamento.

Olhando-se ainda para a relação entre o agronegócio e o desflorestamento da Amazônia, há cerca de dez anos uma iniciativa com grandes players do agronegócio soja buscou utilizar ferramentas de mercado para inibir a cultura como indutora do desflorestamento. Por 12 anos, foi produzido anualmente o Relatório da Moratória da Soja (ABIOVE, 2019). O último relatório relativo ao período 2017/2018, apresentou alguns resultados interessantes. O mesmo indicou que no período de 2002 a 2008 foram desflorestados 8.037 Km2/ano nos municípios monitorados da Amazônia Legal, já no período de 2009 a 2017 esse número caiu para 1.548Km2/ano. Isso representou uma redução um pouco maior do que cinco vezes em relação ao período inicial. O relatório também informa que, em 2017, a taxa de desflorestamento nos sete estados produtores de soja na Amazônia Legal diminuiu em 12,0%, mas ainda se encontra ligeiramente superior à taxa média dos últimos 8 anos. Um trecho de sua conclusão apresenta o seguinte texto:

“Esse levantamento revela que a área de soja responde por 1,4% do território desflorestado no bioma pós-2008. Entretanto, se olharmos apenas para a porção do bioma em que se cultivam 97% da soja (95 municípios) verifica-se que, ainda assim, ela responde por apenas 4,6% da área desflorestada, o que indica que 95,4% dos desflorestamentos ocorridos no período da Moratória da Soja estão  associados a outros usos da terra, levando em conta apenas a área avaliada pela Moratória (ABIOVE Op. cit).”

Todos esses elementos, além de outros, contribuem para a construção das diferentes percepções que cada indivíduo do planeta possui sobre a Amazônia e para que interesses diversos atuem. De maneira sintética, há duas perspectivas quanto ao como proteger a Amazônia. Uma, biocêntrica, que a considera como um jardim botânico que deve ser a grande reserva da biodiversidade da humanidade e, a outra, antropocêntrica, que deseja seu desenvolvimento, mas com conservação ambiental.

Diante dessas diferentes visões, o debate sobre o que fazer para salvar a Amazônia acaba girando em torno de mais do mesmo, ou seja, maior controle governamental, maior atuação de Organizações Não Governamentais, ONGs, e muitos discursos. O Brasil, apesar de já dispor de tecnologia de monitoramento por satélite de alto padrão, ainda hesita ou não está preparado para atuar com políticas alternativas que levem em conta os aspectos econômicos e estratégicos de curto, médio e longo prazo para a cuidar da região utilizando essas novas abordagens e tecnologias.

A Amazônia tem valor e não se discute a veracidade dessa afirmação, mas qual é o seu preço? Valorar e valorizar são definições distintas, mas que são muito confundidas como sendo a mesma coisa. A tese que apresento neste trabalho relaciona-se diretamente a essa situação, ou seja, enquanto o Brasil não assumir que a Amazônia é um bem econômico e que de alguma maneira pode ser parcialmente precificada para fins de tomada de decisões para a sua proteção e continuar alimentando o discurso puramente preservacionista, e por vezes romântico, do seu valor econômico total, o qual existe mas não é fácil ou possível de ser mensurado em sua totalidade, ela será destruída.